Havia uma certa desconfiança em torno de Rogue One. O filme carrega a responsabilidade de ser o primeiro spin-off da saga, um stand-alone com a missão de contar pedaços importantes da história que ficaram de fora dos outros episódios. E começar com algo tão significante – o roubo dos planos da primeira Estrela da Morte, acontecimento estampado nos letreiros do primeiro filme, não poderia ter sido uma escolha melhor.

Dirigido por Gareth Edwards, de Godzilla, e estrelado por nomes como Felicity Jones (A Teoria de Tudo), Diego Luna, Donnie Yen, Mads Mikkelsen e Forest Whitaker, Rogue One: Uma História Star Wars é sim um dos melhores momentos da franquia, mas que não poderia acontecer sem os outros. Se passando imediatamente antes do Episódio IV, o filme depende de um conhecimento prévio de Star Wars, nem que seja o básico – quem é a Aliança Rebelde, o Império, um tal de Darth Vader, e os Jedi. É um filme para os já iniciados.

Dito isso, a película começa e nos joga diretamente na ação. Vamos aos poucos conhecendo os personagens principais, em aparições cronometradas, mas, diferente do Episódio VII, o primeiro ato é um pouco arrastado, A história engrena mesmo lá pela metade e vai em um ótimo nível até o apoteótico final. Não que o começo seja ruim, é só mais introdutório do que o normal.

O que deu certo

Certamente, o filme prova que a ideia dos spin-off da saga tem tudo para dar certo. Ele não só preenche lacunas da história que antes ficavam só na imaginação dos telespectadores, como acrescenta detalhes que só enriquecem o background de alguns personagens e conceitos já estabelecidos. Terminar o filme onde ele termina, minutos antes da abertura de Uma Nova Esperança, causa uma sensação de continuidade e reacende a vontade de rever a trilogia original, agora sob um novo olhar, um novo plano de fundo. Seria até interessante que isso virasse uma outra marca destes derivados – imagine só, se no já anunciado filme do Han Solo, a última cena é a dele entrando na cantina, onde encontra com Luke e Obi-Wan.

Gareth Edwards também acerta a mão na direção. Depois da polêmica escolha de não mostrar tanto o monstro em Godzilla, aqui ele não poupa naves, hiperespaço, planetas e cenas de ação. Ponto alto de sua carreira. Existe uma quantidade boa do famigerado fan-service, mas nada que atrapalhou minha experiência com o filme ou pareceu deslocado, pelo contrário.

Elogios também para a recriação digital de Moff Takin e da Princesa Leia. Vi muita gente reclamando que parecia artificial demais ou mal-feito. O que eu penso é que temos essa sensação justamente pela quantidade de detalhes em rugas, expressões faciais e trejeitos que foram trazidos de volta à vida, que entra em confronto com a informação que temos de que um desses atores já faleceu e o outro está quase 40 anos mais velho. A Industrial Light & Magic está de parabéns, mais uma vez.

O que deu errado

Por mais que me doa dizer isso, chegamos no final do filme sem realmente nos importarmos com aqueles personagens. Quando vemos a morte de cada um, não ficamos tristes, apenas pensamos que eles ainda tinham muito a oferecer. Nos preocupamos muito mais com a conclusão do roubo dos planos e sua entrega para a Aliança, o qual já sabemos que daria certo.

O filme também tropeça ao dar explicações demais em alguns momentos da trama e deixar outros em aberto. Saw Gerrera, um dos melhores dos novos personagens e dono de uma caracterização impressionante, aparece bem pouco. Queríamos mais de Chirrut e menos de Jyn, numa interpretação quase apática de Felicity Jones, por pouco não convincente.

Falta em Rogue One o sentimento de tudo ou nada, a importância do sacrifício. Tudo parece construído para ser apenas o prólogo da primeira aventura de Luke Skywalker.

Mas enfim, vale a pena?

Com certeza. Apesar dos problemas, o filme se entrega bem. É um deslumbre de efeitos especiais e práticos, uma história bem contada e a ainda deixa a famosa sensação de “quero mais”. O filme fez comigo o que nenhum outro fez: me deu o interesse de ir muito mais à fundo no universo, de conhecer cada pedaço da história daquela galáxia. Rogue One é Star Wars em sua essência, um ótimo filme blockbuster que encontra seu público e o agrada em cheio. Não dá pra negar que toda a saga é cheia de percalços em sua construção (um papo para outra hora), mas mesmo assim, ainda dá a volta por cima e se estabelece, novamente, como uma das maiores de aventura da cultura pop.