A literatura fantástica escrita por brasileiros teve uma explosão dos últimos anos pra cá. Vimos boas e bem-escritas histórias saírem das mentes de vários escritores, em vários gêneros diferentes. O ritmo de lançamento pode até ter diminuído um pouco se comparado com o que era a 3, 4 anos atrás, mas a qualidade continua a mesma.

Um desses escritores e expoente dessa nova faceta do texto nacional é Leonel Caldela.

Um autor de escrita simples, mas que consegue trazer significados intensos. Chamado até de “Bernard Cornwell brasileiro”, em referência ao icônico autor de fantasia medieval, mais conhecido recentemente pelas Crônicas Saxônicas.

Leonel já tinha experiência em escrever no universo dos outros, por assim dizer. Seus primeiros trabalhos, muito bem recebidos, se passam no universo de RPG Tormenta. Anos depois, ele repetiria o feito em parceria com os caras do Jovem Nerd, trazendo agora um romance baseado em uma história pensada após a famosa Trilogia de  Nerdcasts de RPG deles, as Crônicas de Ghanor.

E assim surgiu A Lenda de Ruff Ghanor.

De longe, posso dizer que foi o melhor livro que eu li em pelo menos um ano. Leonel sabe como fazer um blockbuster: a história diverte, entretém, e não deixa de ser um ótimo livro de fantasia. Com total liberdade para criar personagens e uma saga, Leonel nos apresenta a história do pequeno Ruff, um menino achado nas montanhas próximas ao mosteiro de São Arnaldo (erro gramatical proposital que é muito bem explicado na trama), e acolhido pelos acólitos do lugar, em um reino sem nome e governado pela tirania do dragão Zamir. Acompanhamos toda a infância e juventude de Ruff, e descobrimos que ele faz parte de um destino maior, o de destronar Zamir.

Conhecemos Ruff com 7 anos, e o livro termina com ele lá pelos seus 20. Neste tempo, vemos as poucas e boas que ele passa em seu árduo treinamento com o prior do mosteiro. Conhecemos seus amigos, Korin e Áxia. Ela acaba se tornando a paixão do herói, mas de um jeito diferente do que estamos acostumados. Korin, o leal amigo, é o personagem mais humano da trama: faz piadas, é teimoso e lembra todo mundo que a vida pode ser mais leve. É bravo, mas tem medo de morrer.

Os três crescem juntos durante o livro, vivendo uma história envolta em drama e tragédias pontuais na vida de cada um deles. Muito bem conduzida, as setpieces e cenários descritos passam a sensação de um mundo totalmente desconhecido. Crescemos com os protagonistas nesta questão, entendendo melhor o domínio de Zamir e o real perigo que ele representa.

Em algumas partes do livro, achei que a história fosse ficar chata, desnecessária. Mas sempre fui surpreendido para melhor. A experiência como mestre de RPG ajudou a elaborar uma história cadenciada, com doses bem distribuídas de alívios cômicos, personagens novos até a última página e uma boa áurea de mistério. Só que alguns leitores também são experientes nessa arte: algumas das surpresas do livro eu já havia descoberto antes, ou pelo menos suspeitado. Uma, em especial, desde o começo. Não chegou a estragar a parte da revelação, mas deve ter perdido um pouco o impacto de uma cena que, mesmo assim, é muito boa.

Se for pra apontar algum defeito, talvez seja a correria de algumas cenas, principalmente no final. A história muda completamente em determinado ponto, que talvez tenha sido um pouco brusco. Existem também duas cenas muito parecidas, com poucas páginas de distância uma da outras, que dão um pouco a sensação de dê-ja-vu. Eu não li os outros livros do autor, mas o consenso geral é de que ele estava meio contido neste, em relação a ser cruel com os personagens e mais visceral na violência. Não é um Leonel Caldela que assume sua alcunha de “chafurdar na escatologia e no sadismo”, é um Leonel PG-13.

O que, em hora nenhuma, prejudica a qualidade da história. Repito: me diverti pra caramba. Me interessei, ficava ansioso para ler os próximos capítulos. O livro é de uma fluidez, passa tão rápido, que em certo ponto me segurei um pouco para não ler rápido demais, para a história durar mais um pouco.

É, com certeza, um dos melhores exemplo de que se pode contar uma boa fantasia e ainda assim ser boa literatura, acabando com um preconceito latente dos (poucos) leitores brasileiros, principalmente os mais velhos. Nós, os jovens, crescemos lendo Harry Potter, vendo O Senhor dos Anéis, presenciando a Batalha do Apocalipse e tantas outras histórias épica. A Lenda de Ruff Ghanor é mais uma dessas, não deve nada a ninguém.

E que venha o volume 2.

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